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Entrevista de Paulo Ferreira da Cunha a "Justiça e Cidadania", 
Suplemento de "O Primeiro de Janeiro" 
(Ricardo Patrício, texto; Tiago André, fotos).

Deveria a figura feminina que personifica a Justiça ter, para além dos olhos vendados, também os ouvidos tapados para não ouvir aquilo que de mal dela se diz?

<r>[Risos] É hábito referirmo-nos à venda nos olhos da Justiça com sinónimo de tratamento imparcial. Inicialmente, porém, a figura da Justiça era vendada para dar a entender, criticamente, que não sabia por onde ia. A Justiça teria os olhos do corpo vendados para que os olhos da alma estivessem bem abertos: ou seja, os ouvidos. A nossa Justiça precisa de ter os ouvidos abertos e de recuperar um símbolo antigo, que existiu em Itália, na Holanda e na Alemanha: uma sua representação com duas cabeças. Uma vendada; a outra de os olhos bem abertos. É preciso que a Justiça trate todos por igual, mas também que não tropece. O dramaturgo e jurista António José da Silva, conhecido por “o judeu”, de quem se celebrou no ano passado os 300 anos do nascimento, dizia que a Justiça é vesga e a venda serve para ocultar o defeito. Ora bem, temos de tirar a venda para saber se é ou não vesga. E depois colocá-la de novo.

<p>Faz sentido afirmar que a Justiça está a transformar-se numa espécie de reserva moral da sociedade?

<r>É uma espécie de suplência moral. Já não se reverenciam as instâncias intermédias na Sociedade e hoje tudo desagua no Direito, que tem de fazer o serviço da religião, da moral, da cortesia... Há uma grande litigiosidade porque a sociedade não tem válvulas de escape. E, ao mesmo tempo o Direito é chamado a resolver coisas que antigamente não tinha que resolver, os juristas perderam em qualidade humanística. Culpa do sistema de ensino. Actualmente há muitos juristas, mas, infelizmente, do ponto de vista cultural e da inserção no mundo, há os que deixam muito a desejar.

<p>A Declaração de Bolonha vai facilitar ou agravar ainda mais esse panorama?

<r>Ainda não se sabe. Uma coisa é a boa intenção da Declaração de Bolonha. Outra é a maneira como tem sido posta em prática, que é diferente de país para país, de momento para momento e, sobretudo, de cabeça para cabeça. O que contraria o princípio fundador de uma certa harmonização. Em Portugal, aparentemente, o que o Ministério  decidiu foi não decidir quanto, por exemplo, à duração dos cursos de Direito. Mas há coisas desde já possitivas: em alguns casos, está a pensar-se, por exemplo, em colocar nos diplomas as actividades extracurriculares que cada aluno desenvolve. O grande problema é: o tempo para fazer os cursos a sério é muito pouco. Sobretudo, em Portugal, onde há um tempo próprio, quase uma respiração nacional, que é positiva porque é de maturação das coisas. Os cursos muito breves brigam com o nosso espírito, que já António Sérgio, com graça, considerava ser de “introdução geral”. Precisamos dessas introduções para ganhar altura... e depois voar.

<p>É desejável que o tempo do Direito tenta a coadunar-se com o tempo social, inexoravelmente mais lento?

<r>Não. O Direito é mais conservador, mais lento. E deve continuar assim. A Justiça tem de ter um «delay» em relação ao ritmo social. Por vezes, é preciso esperar, para ponderar, para decidir sem paixão. Contudo, seria útil que o juiz tivesse, por exemplo, alguns meios extraordinários de acelerar os processos – que poderiam depois ser apreciados em sede de recurso. E, acima de tudo, que se confiasse mais no juiz, que o juiz nunca tivesse “as mãos atadas”. Compreende-se que há demoras escandalosas; por isso, tem de ser alcançado um equilíbrio. Ou seja: acelerar os procedimentos e manter as garantias de defesa.

<p>Mas não é esse procedimento que muitas vezes beneficia o infractor?!

<r>[Pausa] Infelizmente, os infractores podem ser beneficiados no sistema actual de Justiça. Porque ele se preocupa com as garantias e a humanização: e a equipa dos infractores aproveita das regras limpas do jogo. É desejável que deixem de aproveitar dos calcanhares de Aquiles do sistema. Como fazê-lo? Não existe uma receita mágica. Há contudo passos que podem ser dados. Por exemplo: o instituto do abuso do Direito é algo que deveria ser mais aplicado, assim como a litigância de má fé. Podemos conformarmo-nos com a interposição de um processo por alguém que o faz “de mau”, e sem razão nenhuma, só para aborrecer o vizinho? Esse querelador é um criminoso.

<p>Não considera que existe uma capacidade excessiva de recurso para as várias instâncias judiciais?

<r>Pois, isso sim. O princípio do recurso é importante. Mas não deveria, por exemplo, confundir-se o Tribunal Constitucional com uma quarta instância judicial. Infelizmente, em Portugal, acontece isso. Chega-se a uma determinada altura e recorre-se para o Tribunal Constitucional. O que nem sempre é correcto. Não é essa a sua função. Só que, esperando um milagre, ou para ganhar tempo, há quem apele para esse Olimpo.... Mas não há milagres.

<p>A que se deve essa prática?

<r> Apesar dos 30 anos da nova Constituição democrática, ainda temos, em geral, uma débil cultura constitucional. Está a melhorar muito, mas estamos longe de outros. Em países como o Brasil, o Canadá, ou os Estados Unidos, já há muitas instituições e advogados que não interpõem processos sem consultar um especialista em Direito Constitucional. Por vezes, basta uma questão desta natureza para resolver uma causa à partida. Deveríamos levar mais a sério a Constituição. Quando isso suceder, veremos surgir, sem dúvida, uma espécie de “advogados de advogados”, consultores de matéria constitucional. Os departamentos jurídicos de muitas instâncias (estou a pensar, por exemplo, em Câmaras, desde logo) pedirão pareceres como o médico que manda o paciente tirar umas análises. Mesmo por rotina. Falta-nos isso. Além do mais, e embora eu seja muito favorável à estabilidade constitucional, a médio prazo seria muito interessante uma revisão constitucional que afirmasse mais o papel da Constituição no nosso sistema. Não é que não seja hoje clara a sua prevalência. Mas os juristas de amanhã precisam de tudo muito explícito. É preciso dar mais efectividade à Constituição. E é preciso também uma maior sensibilidade constitucional por parte dos juristas e advogados. Num sistema em que as matérias constitucionais fossem mais curadas nas primeira e segunda instância, não como caso excepcional, mas como verificação normal, o Tribunal Constitucional passaria a ser (mal comparando) uma espécie de Supremo Tribunal de Justiça ou Administrativo para as coisas Constitucionais. Embora sempre com as prerrogativas especiais que tem que ter, no cume da pirâmide do Direito.

<p>Essa revisão da Constituição deveria ser feita segundo acordo parlamentar de maioria de dois terços?

<r> Mais que revisão constitucional é precisa uma revolução das mentalidades relativamente ao Direito Constitucional. Mas claro, evidentemente, todas as revisões constitucionais têm que ser, antes de mais, constitucionais, e respeitar as regras constitucionalmente estabelecidas para tal.

<p>Com que horizonte temporal?

<r>Não gosto de pressas neste campo. Com tempo, porque é preciso pensar bem. É uma coisa para mais de meia dúzia de anos. Depende sempre das políticas.

E depois algumas coisas poderiam quiçá ser conseguidas com simples reformas judiciárias. Claro que, nessa altura, ouvir-se-iam sempre alguns clamar pelo habitual “É lobo, é lobo”: que, nesta matéria se traduz por “é inconstitucional”. Por isso, antes da reforma judiciária e à cautela, deveria garantir-se a sua plena constitucionalidade na própria Constituição. Chame-lhe um plano constitucional-judiciário integrado, se quisermos um chavão.

<p>Faltou essa indicação ao pacto da Justiça?

<r>[Pausa] Esta é só uma intuição e contribuição pessoal. As reformas para serem bem feitas têm de ter quem as apoie. A mensagem sobre a importância do Direito Constitucional e Constitucionalização do nosso Direito (o nosso Direito deveria de passar todo pelo crivo da Lei Fundamental) precisa antes de mais de apoio nas Faculdades. Acho que se ensina muito pouco Direito Constitucional, e muito concentrado: por isso, há matérias que são, necessariamente sacrificadas. E isso tem custos de formação futura.

Receio que estas coisas sejam pouco motivadoras para a maioria das pessoas e que, assim possam não ser muito populares. Entretanto, tremo quando, a cada passo, se diz que isto ou aquilo seria inconstitucional. É de uma ligeireza! Vivemos num défice Constitucional por um lado, e numa mania da inconstitucionalidade, por outro. Se daqui a 15 anos, porque eu sou uma pessoa de longo prazo, eu visse que a cultura constitucional já estava suficientemente amadurecida e que se podia, de facto, dar essa dimensão... A revisão constitucional seria apenas o sustentáculo de apoio de um novo sistema. Tal obrigaria a uma alteração da organização judiciária no sentido de dotar os tribunais de instâncias preparadas. Além do mais, e por exemplo, junto de cada juiz deveria haver um corpo de consultores especializados... Mas é coisa para quando for época de vacas menos magras, naturalmente.

<p>O que implicaria também uma aposta ao nível da formação?

<r>Formação a vários níveis. Os tribunais precisam de um corpo de especialistas (criminólogos, sociólogos, psicólogos, etc.) em particular em tribunais especializados como os Criminais, de Família, ou de Trabalho. Um corpo de peritos, de consultores, que soubessem dos assuntos. Não basta saber as leis; é preciso saber a realidade social, que por vezes é muito complexa.

<p>Como observou a celebração do Pacto para a Justiça entre o Governo e o maior partido da oposição?

<r>[Pausa] É um bom princípio e, como tal, deve ser aprofundado e ver-se como vai funcionar na prática. Representa, julgo, apenas um primeiro passo. A Justiça não deveria ser alvo de um excessivo debate político-partidário. A ideia mesma de Justiça implica algum distanciamento em relação à mutável sorte política. Em todo o caso, seria certamente desejável que outros partidos se associassem ao pacto da Justiça. Até porque se ganha socialmente em alargar para fora do “bloco central” a determinação destas coisas muito importantes. Se fosse possível, seria de alargar a base de apoio das grandes reformas. Mas compreendo que não possa ser, porque às vezes as franjas só subsistem porque são diferentes e não consensuais.

<p>Uma medida que no seu entender seja fundamental para melhorar a Justiça?

<r> A recolha do máximo possível de legislação avulsa em códigos. É algo de urgente, mas não pode ser feito com pressa. Deveria haver uma espécie de “carro-vassoura” da Justiça. Uma comissão permanente cuja sua função fosse verificar a legislação que está realmente em vigor. E promover a sua actualização, integrando o mais possível em códigos. A informática já dá uma enorme ajuda. Mas temos que ir desbravando, de catana em punho, a selva da floresta do Direito. E atirar para o lixo o que é inútil. Não são precisas muitas leis, mas leis boas.

<p>E far-se-ia isso à bolina da revisão Constitucional que propõe?

<r>Não. Isto pode ser feito já. Agora. Depois, é preciso uma política de longo prazo para a Justiça.

 

<p>Durante o último encontro da Federação das Ordens de Advogados da Europa, que teve lugar no Porto, foi defendido um código de conduta comum para os advogados europeus no exercício da actividade. Parece-lhe uma proposta interessante?

<r>É desejável. A necessidade de liberdade de profissão e estabelecimento em todo o território da União Europeia impõe essas regras conjuntas, a meu ver. Mas, mais uma vez, tudo tem que resultar de muito diálogo e troca de experiências.

 

entrevista da Prof. Doutora Fátima Vieira, para a revista E-topia
Citação: Fátima Vieira, "Entrevista a Paulo Ferreira da Cunha", E-topia: Revista Electrónica de Estudos sobre a Utopia, n.o 5 (2006). ISSN
1645-958X.


Professor Catedrático de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Porto, Paulo Ferreira da Cunha assume também as funções de Director do Instituto Jurídico-Interdisciplinar (de que é fundador) 
dessa Faculdade. É aliás através desse Instituto que Paulo Ferreira da Cunha tem vindo a colaborar com
os membros do Projecto de Investigação que edita a E-topia. Recentemente, os laços entre o Instituto
Jurídico-Interdisciplinar e o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa foram reforçados com a
criação, no Instituto sediado na Faculdade de Direito, de uma linha de investigação intitulada “Direito e
Utopia”.
O curriculum vitae de Paulo Ferreira da Cunha impressiona, pela sua extensão e qualidade. Director dos
Cadernos Electrónicos Antígona (www.antigona.web.pt), Co-Director dos Cadernos Interdisciplinares Luso-
Brasileiros (São Paulo), Investigador do Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa,
bem como do Centro de Estudos do Pensamento Português da Universidade Católica Portuguesa,
Membro da Secção de Direito da Academia Skepsis, de Semiótica e Direito (São Paulo), Fundador do
Centro de Estudos Medievais – Oriente-Ocidente (Univ. São Paulo), Membro da Académie Européenne de
Théorie du Droit (Bruxelas) e de várias outras Instituições e Sociedades Científicas internacionais, Paulo
Ferreira da Cunha é autor de uma vasta bibliografia, de que se destacam mais de 200 artigos em revistas
especializadas e em obras colectivas, nacionais e internacionais, e cerca de 60 livros. Trata-se sem dúvida
de um caso espantoso de produtividade académica, sobretudo tendo em conta a juventude deste
Professor Catedrático de Direito (n. 1959). Quem o conhece compreende contudo como é esta situação
possível: para além do discurso fluente e cativante e da curiosidade (e qualidade) intelectual de que as
suas publicações são o melhor testemunho, Paulo Ferreira da Cunha é animado pela esperança utópica
(de que falava Bloch e de que o próprio Professor fala também nesta entrevista) de que as suas
intervenções possam contribuir para uma mudança efectiva das mentalidades. As crónicas que tem vindo
a assinar às quintas-feiras para o jornal O Primeiro de Janeiro (consultáveis on-line em
http://www.oprimeirodejaneiro.pt) são sem dúvida pontuadas pela atitude de desassossego e inquietação
face à ideologia petrificada, característica que Paul Ricoeur fez associar ao pensamento utópico.
Tanto no seu percurso académico como nos livros que assinou, a vertente utópica tem estado presente de
forma bem explícita, como é o caso da dissertação de doutoramento em Direito que apresentou à
Universidade de Coimbra e do livro Lusofilias que recentemente publicou. Nesta entrevista, (feita, como
sempre na E-topia, via correio electrónico), Paulo Ferreira da Cunha explica os caminhos que tem trilhado
e comenta aqueles que gostaria de nos ver a todos percorrer.

É um homem de muitas facetas: professor universitário, ensaísta, jurista, cronista, poeta: qual
destas facetas o faz aproximar-se mais da utopia?

Depende, antes de mais, da concepção de utopia. Há muitos anos que, na senda de vários autores, mas
com uma vontade clarificadora pessoal, costumo distinguir utopia (mito da cidade ideal, que pode ter uma
concretização literária ou política) de utopismo (sinónimo de princípio esperança, como dizia Bloch). Assim,
embora seja pouco ortodoxo dizê-lo, o princípio esperança ou utopismo impregna todas as minhas
actividades, ou nelas está presente como pano de fundo. Já a utopia é mais própria de alguns géneros de
actividade e de literatura do que outros... Pessoalmente, acho que a utopia como cidade ideal geométrica
pode ser interessante catalizador ou polarizador de imaginação social e política, mas a ser usada com a
maior das precauções, para que a eutopia benfazeja se não torne em pérfida distopia. Há um título de um
livro de um escritor moçambicano que retrata muito bem o que podem ser os utopistas de uma utopia sem
raízes, sem noção do real: o livro chama-se “Fabricantes de Infernos”.


A sua dissertação de Doutoramento, defendida na Universidade de Coimbra em 1995, intitula-se
Constituição, Direito e Utopia: Do Jurídico-Constitucional nas Utopias Políticas. Que tese se propôs
defender nesse estudo?

Basicamente pretendi averiguar se as Constituições são um género literário próximo da utopia. E se as
utopias, em geral, são “romances” da Constituição. Creio tê-lo comprovado e demonstrado. Há
consequências práticas, de hermenêutica constitucional e de análise histórica do Constitucionalismo, que
da tese me parecem resultar (embora nela estejam ainda apenas em esboço ou em potência). Por
exemplo: de tal maneira é importante a forma literária nas Constituições, que mesmo regimes autoritários,
como em Portugal o Estado Novo, fazem constituições com um estilo próprio do do cânone literário da
“Constituição ideal”. Por exemplo, com Parlamentos. O regime de Salazar é incoerente quando estabelece
um Parlamento, mas fá-lo. Creio que aí há a atracção do paradigma “literário” constitucional, entre outros
factores, é claro.
Seja como for, o caminho para à tese chegar foi longo, contextual, histórico, comparatístico, etc. Ela foi
precedida de uma tese de Mestrado sobre a Perspectiva Conceitual e Histórica da relação entre Mito e
Constitucionalismo em Geral, defendida em Coimbra, e por uma tese de Doutoramento em Paris II
especificamente sobre as relações mítico-constitucionais entre Portugal e a França e a História filosófica do
constitucionalismo português no seu período a meu ver mais interessante e mais genuíno: de 1777 a 1826.
A tese de Mestrado acabaria por integrar o vol. I da minha “Teoria da Constituição”, e continuei a história
constitucional portuguesa num livro que está para sair do prelo, a que chamei “Raízes da República”.
Este vasto plano, perseguido por muitos anos, está a frutificar. A visão da Constituição como mito e
símbolo (que estão na base da utopia) já foram objecto de teses, por exemplo no Brasil.

Assina às quintas-feiras para o jornal O Primeiro de Janeirouma crónica que traduz o seu
empenhamento no tocante a questões políticas, culturais e educativas. Considera possível (e
desejável) a adopção de uma atitude utópica em matéria política? Será que na sociedade emque
vivemos, onde as nossas elites são cada vez “menos cultas” – como afirma numa das suas
crónicas – existe ainda um lugar para uma “visão utópica”?

Entendendo a “utopia”, na sua pergunta, como suplemento de alma, e princípio esperança – claro –ainda
acho que sim. Quanto mais o cinzentismo possa imperar, mais urgente é reivindicar uma outra forma de
fazer política. O lugar à inteligência e à cultura na política é um vasto caminho que pode e deve ser
percorrido. Pode ser mesmo uma forma revolucionária, no melhor sentido da palavra. Quanto mais a
política se aproximar do seu grau zero, mais se deverá elevar a fasquia e ter um discurso e uma prática
num registo diverso.
Em Portugal temos a ideia de que a politica é muito baixa, mas é porque não vemos o que se passa
noutros países. Não é um álibi para resignação, mas temos de ser objectivos. Uma reforma política em
Portugal, apesar de tudo, não parte do abaixo de zero... Ainda há gente generosa na política. Ainda há
gente competente. É preciso que os “bons” se façam ouvir, e deixem de ser “bonzinhos”...

No Instituto Jurídico Interdisciplinar da Faculdade de Direito do Porto, de que é Director, existe uma
linha de investigação intitulada “Direito e Utopia”. Quais são as suas expectativas em relação ao
desenvolvimento dessa linha? E no que respeita ao projecto do próprio instituto?

Expectativas? Todas. Nós temos uma visão não directiva na concepção do Instituto. Ele é mais uma rede
de projectos que uma entidade comandada por essa figura sinistra que é o cappo di scuola. No Instituto
não há cappo di scuola. Cada linha de investigação é mesmo o que os seus membros quiserem que seja.
E estou certo do êxito dessa, que conta com a colaboração de membros do Instituto de Literatura
Comparada Margarida Losa. Uma iniciativa em que a linha participará será precisamente o IV colóquio
Internacional do IJI, sobre Direito e Literatura, em 7 de Dezembro próximo. Em colaboração com a linha
Direito e Literatura, propriamente dita.


No seu livro Lusofilias, publicado pela EditoraCaixotim (2005), são constantes as referências à
utopia. Fala, especificamente, de uma “agenda europeia utopista” que faz com que os portugueses
esqueçam o “mundo lusófono” (p. 18). Pode desenvolver esta ideia?

Não tenho aqui o livro comigo. Devo confessar certamente um lapso. Se escrevi aí “utopista” deveria ter
escrito “utópica”, e mais ainda “distópica”. A Europa é uma magnífica eutopia (utopia benfazeja, positiva)
mas há eurocratas que querem uma Babel distópica. Alguns dos efeitos da utopia negativa da Europa são
a plastificação das relações internacionais. E o desprezo de outros laços. Ora a lusofonia é mito, mito no
sentido positivo. E tudo menos utopia babélica, distopia.
Além da simples proximidade geográfica com a Europa, os Portugueses têm uma proximidade histórica e
de espírito também noutras direcções. Há corredores da alma....

Nesse mesmo livro, fala com pesar dos “jovens portugueses, triturados por anos e anos de
reformas educativas desenraizadoras e infantilizantes, [que] chegam à Universidade na sua
esmagadora maioria sem uma ideia da História de Portugal, da sua Cultura, da sua Literatura” (p.
27). Sendo a História, a Cultura e a Literatura de Portugal claramente perpassadas por um vector
utópico de carácter messiânico, teme que o sentidode se “ser português” esteja a ser posto em
causa?

“Ser português” não é algo de unívoco. Há várias formas de ser português. Veja o que se passou com a
“Filosofia Portuguesa”. Quando se compreendeu que é toda a filosofia em língua e pensamento português,
passou a ser aceite por todos os quadrantes –e hoje temos já dela uma belíssima História, dirigida por
Pedro Calafate, editada pela Caminho, com uma colaboração muito pluralista.
Há muitos elementos, diversificados, no ser português. Utópicos e terra-a-terra, messiânicos ou não.
Vejamos os espanhóis: eles também são quer Quijote quer Sancho. Mas, seja como for, uma coisa é certa:
sem o conhecimento da Cultura, da Literatura, da História, não se conhecerá Portugal, e seremos um
departamento periférico de uma utopia negativa, sem carácter, sem alma.

Ressalta do seu livro a ideia de que o Brasil é o nosso “país-irmão” e que o facto de falarmos a
mesma língua leva a que partilhemos a “mesma estrutura mental”, pelo que, ao contrário do que se
pensa, Portugal “nunca terá estado realmente só, orgulhosamente ou não” (p. 69). Acredita que o
futuro português, cultural e ideológico, passará sempre por uma relação próxima do Brasil?

Sem qualquer dúvida. Além de um passado comum, o Brasil é (num certo sentido) um leque dos futuros
possíveis de Portugal. Contém em si bons e maus futuros nossos. E é possível e desejável um futuro de
cooperação maior.
Já no passado dele nos vieram belíssimas inspirações. Nem falo na Carta Constitucional, que tem o record
de vigência entre nós, e veio do Brasil, foi escrita por D. Pedro por cima da Constituição do Brasil. Apenas
mais um exemplo, não muito distante. O que consolidou culturalmente, socialmente, o 25 de Abril, foi a
telenovela “Gabriela”, por exemplo.
Mas é preciso, de lá e de cá, repensar as formas clássicas e anquilosadas de relação. É preciso
imaginação.
De qualquer forma, a crise da relação com o Brasil é só politica. Porque os voos estão sempre cheios. Os
particulares se têm encarregado da cooperação. Claro que não chega...

Mais adiante, no livro, defende o sistema da Universidade Britânica, que se baseia num “extremo
elitismo na admissão”, e refere com admiração os “hábitos de urbanidade, trabalho e investigação,
curiosidade intelectual e formação” que o sistema universitário britânico proporciona aos seus
alunos (p. 102). Na sua perspectiva, a Declaração de Bolonha, que recentemente obrigou à
reformatação dos cursos universitários portugueses, poderá elevar os nossos alunos a um patamar
de excelência comparável ao britânico?

Não conheço, infelizmente, o sistema universitário britânico ao ponto de o encarar como uma eutopia.
Invoquei-o como bom exemplo a propósito da selectividade, como noutro lugar o invoquei também a
propósito do ensino de certas matérias práticas, que, no Reino Unido, não são ensinadas nas
Universidades, mas deixadas para os estágios e para a vida. Para surpresa de muitos, que crêem que o
espírito prático dos súbditos de S. M. os levaria a fazer universidades meramente politécnicas.

Quanto à prospectiva, não tenho mesmo bola de cristal. A Declaração de Bolonha foi excelente no seu
espírito original, no seu texto, sem mais. O problema são os burocratas que querem usá-la para ter mais
poder, e os governos para poupar dinheiro.
Temo muito pela qualidade universitária com Bolonha. Mas não tenhamos dúvidas: a qualidade depende,
mesmo com esquemas enquadradores adversos, dos professores. Se os professores fizessem um pacto
contra o facilitismo, nenhuma perversão do espírito da vera Bolonha poria em causa a qualidade. O
problema é serem capazes de resistir aos ataques dos colegas que se venham a revelar laxistas, e ao
canto de sereia (ou à litania) da falta de dinheiro. Uma Universidade economicamente dependente, pedinte
mesmo, fica psicologicamente debilitada para exercer a sua função de selecção. E assim a qualidade
perde-se.
Em vários países se enraíza a ideia de que ensino pago dá direito ao diploma. Isso é também fruto da
mentalidade anarco-capitalista que hoje impera.

Refere ainda que “[a] ideia de “comunidade europeia” comove uns (é uma utopia realizada) mas
pode enfurecer outros” (p. 128). Qual é a sua posição?

Eu sou europeísta. Por volta dos 18 anos fundei a que terá sido a primeira associação de jovens
europeístas em Portugal. O problema é Portugal ser capaz, na Europa, da mesma grandeza e inventiva
que mostrou outrora nos Mares. A Europa é um destino português simétrico do seu destino lusófono. Mas
não são incompatíveis, antes perfeitamente complementares. Infelizmente, poucos compreendem essa
articulação, que é, afinal, signo do universalismo português.

A sua admiração pelo pensamento de Agostinho da Silva é clara em Lusofilias, mas também em
outros textos seus. Na sua opinião, em que sentido foi (é?) Agostinho da Silva importante para
Portugal?

Agostinho não pode ser visto como um Santo Agostinho. É um caso de profetismo nacional em muitos
aspectos, mas não é uma Torah. Há um enorme panteão de intelectuais portugueses que devem, com
Agostinho, ser venerados, e sobretudo lidos e pensados. Agora, evidentemente que na questão lusófona,
Agostinho, pelo seu conhecimento dessa matéria, e conhecimento lido e vivido, é uma espécie de irmão de
Gilberto Freyre para o Brasil. Um e outro têm e tiveram, e continuarão decerto a ter, os seus
aproveitamentos políticos, pro domo. Mas o seu legado transcende as capelinhas.
Um dos nossos grandes problemas é que vemos tudo por etiquetas e de acordo com grupos.
Precisávamos de mais cidadania, de mais liberdade individual, de ser mais gatos, como era Agostinho. Um
verdadeiro “português à solta”.

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Here I might include a picture of the interviewee.

Revista Electrónica de Direito Constitucional & Filosofia Jurídica